quinta-feira, outubro 01, 2009

Poema (quase) erótico

Crawling skin
dos pés à cabeça
pelas paredes até o teto

Desejo faz que devora
mas só mordisca
só fica na vontade

domingo, setembro 27, 2009

Independência

Andar aos poucos
com o coração aos trancos:
tropeçar
vacilar
ir e voltar
parar, chorar e gritar
se sentar, se deitar e se encolher
esperar
tudo mudar
alguém pra ajudar
e ele sem chegar
para pra pensar
gargalhar
se levantar
correr
voar
sem hora marcada
pra voltar

sábado, fevereiro 24, 2007

Catarse I

Alguém me diz:
como se chora?

Se me dói a alma
ou as tripas
faço delas palavras sem rima.
É aí que fica pior:
começo a fazer beleza
justo quando dói.

E acabo que deixo
doer mais um pouquinho
só pra poder sentir o gosto...

Pronto! Queria saber gritar
pra saber desistir
de querer ser poeta...

quinta-feira, novembro 23, 2006

Revisited

Atravessou a rua sem olhar para os lados, medo de ser reconhecido. Sem medo de carros, porém, só carroças por lá, carros de boi que você pode ouvir de longe o gemido.
Ainda estava tudo lá, mas tudo tinha cabelos brancos de teia de aranha, mato crescendo cobrindo o caminho de barro batido, a porteira escancarada mais parecendo uma boca banguela.

O tempo passou.

Andava com dificuldade pelo chão, sem ver a trilha de chão vermelho que lembrava de criança, tudo muito mato. Ia em direção à casa: consolo! Ainda podia se ver, no alto do morro, de pé. Talvez ela fosse jovem, ainda... Mais que o mundo, que caducava e ria e chorava ao mesmo tempo, sempre por causa... Por causa de quê, mesmo? Muito tempo, já esqueceu.

As árvores ainda estavam lá, testemunhas do tempo, mas sem brinquedos de balançar pendurados, a casinha nem sinal. Chuva ou ladrão? O assassino não importava, só a dor do golpe. Ver a criança morta ao seu redor doía. Ou melhor, não; não doía mais, só desesperava, ferida muito funda e muito antiga, coceira na chuva.

Casa sem portas, sem janelas, sem telhas. Sem cortinas de esconder dragões e bandidos de bangue-bangue. Sem escadas que viravam montanhas com castelos no alto com princesas dentro. Tudo parecia ter se esquecido dos jogos e das risadas gostosas e dos sustos na mãe. Conversar com avó muito muito velhinha que não lembra dos parentes e geme baixinho, pedindo pelos netinhos que a memória não sabe mais ver. Mas estão todos ali, bem na frente.

Mas ela continua gritando.

O grito doía no peito. Vinha um outro, mais seu, parado no estômago, bem alto e meio azedo. Subiu correndo as escadas podres, matando os cupins no meio do caminho. Estava lá, no sótão. Pegar e sair rápido, não lembrar a própria morte daquele jeito. Era muito cruel ver que só ele lembrava, que nem as coisas tinham pena dele e queriam a todo custo arrancar água de sua vista.

Chegou no topo, viu o baú, branco-cinza de poeira. Abriu com pressa, virou tudo por cima do chão, menos por nojo das traças e baratas que saíam voando. Mais com raiva de tudo não ser pra sempre. Vasculhou as bugingangas, roupas velhas roídas, brinquedos de ferrugem vermelha, até achar. O saco estava puído e todas elas caíram no chão. E, de repente.

As estrelas, e havia vida de novo.

Nenhuma delas havia quebrado, sumido, todas lá. cinqüenta e oito bolinhas de gude batendo no chão e rolando, fazendo barulho, e tudo passando de novo nos olhos. Os buracos cavados na terra do quintal, triângulo riscado de giz no cimento. A riscada de laranja ele ganhou de aposta, a tida transparente foi a primeira que comprou, guardando o troco do pão... As treze, aquelas, todas iguais iguaizinhas!

Uma a uma, catava do chão e guardava no bolso. E de supetão brincava na chuva, descia a escada de dois em dois degraus, dava língua pras pessoas grandes. Ria ria ria... Riso depois de tempo.

Ainda dá, pensou. Ainda estava tudo lá, todos. Ligou para casa, e do outro lado seu filho deu um pulo e desligou o telefone, já contando os dias para passar as férias na casa da bisavó.

domingo, julho 23, 2006

Poesia

Palavra
é pedra na garganta

Amor
é faca que a arranca

sexta-feira, maio 19, 2006

Borboletas

Pelos olhos de Bete, a cena toda é um milagre. É um fim de tarde e faz sol, uma surpresa na época de chuvas que já começou, e ela sentada num banco da praça, a brisa fresquinha, não faz calor. Ela quer uma boa notícia, embora espere por uma desilusão; suas mãos abrem e fecham a bolsa a todo momento, mesmo o celular não tendo tocado.

E começa. São dezenas de borboletas amarelas, todas juntas, bem à sua frente. Elas não passam por ela simplesmente, como seria de se esperar, mas escolhem ficar lá, só para ela. Ou pelo menos é o que Bete pensa; é só nisso que consegue pensar enquanto, com lágrimas nos olhos, esquece por um momento a angústia que a persegue há semanas. Mal percebe quando o celular toca em suas mãos, atende sem desgrudar os olhos da revoada de borboletas - é essa a palavra, revoada? Ela não sabe, e o encanto não deixa espaço para que ela pense mais nisso, só permite que ela ouça as palavras, quase gritadas, que chegam pelo telefone:

"Deu certo, ele etá bem!"

O clichê completa-se com o aparelho caindo no chão, Bete ajoelhando-se e agradecendo a Deus o milagre, toda riso e lágrimas. As borboletas vão embora, mas já cumpriram seu papel de portadoras da boa nova. Elas não precisam mais estar ali, não precisam mais existir: já são uma memória que Bete carregará para sempre. Por causa dela, Bete voltará a ir à Igreja, batizará os filhos, brigará com o marido nos domingos de manhã. Acenderá velas e incensos, rezará orações diárias.

E sempre que vir uma borboleta amarela, lembrará com carinho do dia em que uma vida que julgava perdida foi ganha de volta. E agradecerá silenciosamente às pequenas borboletas que trouxeram de volta uma alegria que não esperava rever. QUando for velha, ensinará a seus netos que uma borboleta é um sinal de Deus.

Mas e elas? E as borboletas, o que pensam disso?

Será que elas sabem da alegria de Bete, será que elas ligam para a mulher que transformou o desespero em felicidade, que grita um obrigado para o céu?

Uma revoada de borboletas - assim como Bete, elas não ligam se é essa a palavra - se importa com as flores, fonte de alimento, com os pássaros, aranhas e sapos, seus predadores, e com a possibilidade de acasalamento, seu objetivo de vida. O resto não faz o menor sentido.

Bete se preocupa se estas borboletas que ela vê não são nem um décimo do que os ovos que uma única delas botaria em um dia? Que havia o dobro delas há uma semana atrás? Que daqui a alguns dias não haverá mais nenhuma delas, apenas os ovos que as mais fortes conseguirão pôr, que vão chocar em larvas e repetir talvez para sempre esse ciclo?

Pelo contrário: a Bete não importam a vida e morte das borboletas. Por ingenuidade, às vezes põe-se a imaginar se elas ainda não estariam por aí, levando milagres a mais filhos e filhas de Deus. Chega a reconhecer dez, vinte anos mais tarde uma daquelas mensageiras nas manchinhas amarelas esvoaçantes de cada primavera, ingênua, ignorando suas mortes - trágicas? Não, falta tragédia na vida das borboletas.

E assim as borboletas também nada sabem de Bete, que era apenas uma pedra engraçada que protegia contra o vento. Para as borboletas não há mensagem, não há milagre, há apenas a vida que não se consegue entender.

domingo, abril 23, 2006

Via Láctea

(Renato Russo)

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
e quando chegar a noite
cada estrela parecerá uma lágrima
queria ser como os outros
e rir das desgraças da vida
ou fingir estar sempre bem
ver a leveza das coisas com humor
mas não me diga isso
é só hoje e isso passa
só me deixe aqui quieto
isso passa
amanhã é um outro dia não é
eu nem sei porque me sinto assim
tem de repente um anjo triste perto de mim
e essa febre que não passa
e meu sorriso sem graça
não me dê atenção
mas obrigado por pensar em mim
quando tudo está perdido
sempre existe uma luz
quando tudo está perdido
sempre existe um caminho
quando tudo está perdido
eu me sinto tão sozinho
quando tudo está perdido
não quero mais ser quem eu sou
mas não me diga isso
não me dê atenção
e obrigado por pensar em mim
não me diga isso
não me de atenção
e obrigado por pensar em mim.
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Sem grandes novidades; meio sem graça... Mas de volta. É isso que conta, acho.