Crawling skin
dos pés à cabeça
pelas paredes até o teto
Desejo faz que devora
mas só mordisca
só fica na vontade
quinta-feira, outubro 01, 2009
domingo, setembro 27, 2009
Independência
Andar aos poucos
com o coração aos trancos:
tropeçar
vacilar
ir e voltar
parar, chorar e gritar
se sentar, se deitar e se encolher
esperar
tudo mudar
alguém pra ajudar
e ele sem chegar
para pra pensar
gargalhar
se levantar
correr
voar
sem hora marcada
pra voltar
com o coração aos trancos:
tropeçar
vacilar
ir e voltar
parar, chorar e gritar
se sentar, se deitar e se encolher
esperar
tudo mudar
alguém pra ajudar
e ele sem chegar
para pra pensar
gargalhar
se levantar
correr
voar
sem hora marcada
pra voltar
sábado, fevereiro 24, 2007
Catarse I
Alguém me diz:
como se chora?
Se me dói a alma
ou as tripas
faço delas palavras sem rima.
É aí que fica pior:
começo a fazer beleza
justo quando dói.
E acabo que deixo
doer mais um pouquinho
só pra poder sentir o gosto...
Pronto! Queria saber gritar
pra saber desistir
de querer ser poeta...
como se chora?
Se me dói a alma
ou as tripas
faço delas palavras sem rima.
É aí que fica pior:
começo a fazer beleza
justo quando dói.
E acabo que deixo
doer mais um pouquinho
só pra poder sentir o gosto...
Pronto! Queria saber gritar
pra saber desistir
de querer ser poeta...
quinta-feira, novembro 23, 2006
Revisited
Atravessou a rua sem olhar para os lados, medo de ser reconhecido. Sem medo de carros, porém, só carroças por lá, carros de boi que você pode ouvir de longe o gemido.
Ainda estava tudo lá, mas tudo tinha cabelos brancos de teia de aranha, mato crescendo cobrindo o caminho de barro batido, a porteira escancarada mais parecendo uma boca banguela.
O tempo passou.
Andava com dificuldade pelo chão, sem ver a trilha de chão vermelho que lembrava de criança, tudo muito mato. Ia em direção à casa: consolo! Ainda podia se ver, no alto do morro, de pé. Talvez ela fosse jovem, ainda... Mais que o mundo, que caducava e ria e chorava ao mesmo tempo, sempre por causa... Por causa de quê, mesmo? Muito tempo, já esqueceu.
As árvores ainda estavam lá, testemunhas do tempo, mas sem brinquedos de balançar pendurados, a casinha nem sinal. Chuva ou ladrão? O assassino não importava, só a dor do golpe. Ver a criança morta ao seu redor doía. Ou melhor, não; não doía mais, só desesperava, ferida muito funda e muito antiga, coceira na chuva.
Casa sem portas, sem janelas, sem telhas. Sem cortinas de esconder dragões e bandidos de bangue-bangue. Sem escadas que viravam montanhas com castelos no alto com princesas dentro. Tudo parecia ter se esquecido dos jogos e das risadas gostosas e dos sustos na mãe. Conversar com avó muito muito velhinha que não lembra dos parentes e geme baixinho, pedindo pelos netinhos que a memória não sabe mais ver. Mas estão todos ali, bem na frente.
Mas ela continua gritando.
O grito doía no peito. Vinha um outro, mais seu, parado no estômago, bem alto e meio azedo. Subiu correndo as escadas podres, matando os cupins no meio do caminho. Estava lá, no sótão. Pegar e sair rápido, não lembrar a própria morte daquele jeito. Era muito cruel ver que só ele lembrava, que nem as coisas tinham pena dele e queriam a todo custo arrancar água de sua vista.
Chegou no topo, viu o baú, branco-cinza de poeira. Abriu com pressa, virou tudo por cima do chão, menos por nojo das traças e baratas que saíam voando. Mais com raiva de tudo não ser pra sempre. Vasculhou as bugingangas, roupas velhas roídas, brinquedos de ferrugem vermelha, até achar. O saco estava puído e todas elas caíram no chão. E, de repente.
As estrelas, e havia vida de novo.
Nenhuma delas havia quebrado, sumido, todas lá. cinqüenta e oito bolinhas de gude batendo no chão e rolando, fazendo barulho, e tudo passando de novo nos olhos. Os buracos cavados na terra do quintal, triângulo riscado de giz no cimento. A riscada de laranja ele ganhou de aposta, a tida transparente foi a primeira que comprou, guardando o troco do pão... As treze, aquelas, todas iguais iguaizinhas!
Uma a uma, catava do chão e guardava no bolso. E de supetão brincava na chuva, descia a escada de dois em dois degraus, dava língua pras pessoas grandes. Ria ria ria... Riso depois de tempo.
Ainda dá, pensou. Ainda estava tudo lá, todos. Ligou para casa, e do outro lado seu filho deu um pulo e desligou o telefone, já contando os dias para passar as férias na casa da bisavó.
Ainda estava tudo lá, mas tudo tinha cabelos brancos de teia de aranha, mato crescendo cobrindo o caminho de barro batido, a porteira escancarada mais parecendo uma boca banguela.
O tempo passou.
Andava com dificuldade pelo chão, sem ver a trilha de chão vermelho que lembrava de criança, tudo muito mato. Ia em direção à casa: consolo! Ainda podia se ver, no alto do morro, de pé. Talvez ela fosse jovem, ainda... Mais que o mundo, que caducava e ria e chorava ao mesmo tempo, sempre por causa... Por causa de quê, mesmo? Muito tempo, já esqueceu.
As árvores ainda estavam lá, testemunhas do tempo, mas sem brinquedos de balançar pendurados, a casinha nem sinal. Chuva ou ladrão? O assassino não importava, só a dor do golpe. Ver a criança morta ao seu redor doía. Ou melhor, não; não doía mais, só desesperava, ferida muito funda e muito antiga, coceira na chuva.
Casa sem portas, sem janelas, sem telhas. Sem cortinas de esconder dragões e bandidos de bangue-bangue. Sem escadas que viravam montanhas com castelos no alto com princesas dentro. Tudo parecia ter se esquecido dos jogos e das risadas gostosas e dos sustos na mãe. Conversar com avó muito muito velhinha que não lembra dos parentes e geme baixinho, pedindo pelos netinhos que a memória não sabe mais ver. Mas estão todos ali, bem na frente.
Mas ela continua gritando.
O grito doía no peito. Vinha um outro, mais seu, parado no estômago, bem alto e meio azedo. Subiu correndo as escadas podres, matando os cupins no meio do caminho. Estava lá, no sótão. Pegar e sair rápido, não lembrar a própria morte daquele jeito. Era muito cruel ver que só ele lembrava, que nem as coisas tinham pena dele e queriam a todo custo arrancar água de sua vista.
Chegou no topo, viu o baú, branco-cinza de poeira. Abriu com pressa, virou tudo por cima do chão, menos por nojo das traças e baratas que saíam voando. Mais com raiva de tudo não ser pra sempre. Vasculhou as bugingangas, roupas velhas roídas, brinquedos de ferrugem vermelha, até achar. O saco estava puído e todas elas caíram no chão. E, de repente.
As estrelas, e havia vida de novo.
Nenhuma delas havia quebrado, sumido, todas lá. cinqüenta e oito bolinhas de gude batendo no chão e rolando, fazendo barulho, e tudo passando de novo nos olhos. Os buracos cavados na terra do quintal, triângulo riscado de giz no cimento. A riscada de laranja ele ganhou de aposta, a tida transparente foi a primeira que comprou, guardando o troco do pão... As treze, aquelas, todas iguais iguaizinhas!
Uma a uma, catava do chão e guardava no bolso. E de supetão brincava na chuva, descia a escada de dois em dois degraus, dava língua pras pessoas grandes. Ria ria ria... Riso depois de tempo.
Ainda dá, pensou. Ainda estava tudo lá, todos. Ligou para casa, e do outro lado seu filho deu um pulo e desligou o telefone, já contando os dias para passar as férias na casa da bisavó.
domingo, julho 23, 2006
sexta-feira, maio 19, 2006
Borboletas
Pelos olhos de Bete, a cena toda é um milagre. É um fim de tarde e faz sol, uma surpresa na época de chuvas que já começou, e ela sentada num banco da praça, a brisa fresquinha, não faz calor. Ela quer uma boa notícia, embora espere por uma desilusão; suas mãos abrem e fecham a bolsa a todo momento, mesmo o celular não tendo tocado.
E começa. São dezenas de borboletas amarelas, todas juntas, bem à sua frente. Elas não passam por ela simplesmente, como seria de se esperar, mas escolhem ficar lá, só para ela. Ou pelo menos é o que Bete pensa; é só nisso que consegue pensar enquanto, com lágrimas nos olhos, esquece por um momento a angústia que a persegue há semanas. Mal percebe quando o celular toca em suas mãos, atende sem desgrudar os olhos da revoada de borboletas - é essa a palavra, revoada? Ela não sabe, e o encanto não deixa espaço para que ela pense mais nisso, só permite que ela ouça as palavras, quase gritadas, que chegam pelo telefone:
"Deu certo, ele etá bem!"
O clichê completa-se com o aparelho caindo no chão, Bete ajoelhando-se e agradecendo a Deus o milagre, toda riso e lágrimas. As borboletas vão embora, mas já cumpriram seu papel de portadoras da boa nova. Elas não precisam mais estar ali, não precisam mais existir: já são uma memória que Bete carregará para sempre. Por causa dela, Bete voltará a ir à Igreja, batizará os filhos, brigará com o marido nos domingos de manhã. Acenderá velas e incensos, rezará orações diárias.
E sempre que vir uma borboleta amarela, lembrará com carinho do dia em que uma vida que julgava perdida foi ganha de volta. E agradecerá silenciosamente às pequenas borboletas que trouxeram de volta uma alegria que não esperava rever. QUando for velha, ensinará a seus netos que uma borboleta é um sinal de Deus.
Mas e elas? E as borboletas, o que pensam disso?
Será que elas sabem da alegria de Bete, será que elas ligam para a mulher que transformou o desespero em felicidade, que grita um obrigado para o céu?
Uma revoada de borboletas - assim como Bete, elas não ligam se é essa a palavra - se importa com as flores, fonte de alimento, com os pássaros, aranhas e sapos, seus predadores, e com a possibilidade de acasalamento, seu objetivo de vida. O resto não faz o menor sentido.
Bete se preocupa se estas borboletas que ela vê não são nem um décimo do que os ovos que uma única delas botaria em um dia? Que havia o dobro delas há uma semana atrás? Que daqui a alguns dias não haverá mais nenhuma delas, apenas os ovos que as mais fortes conseguirão pôr, que vão chocar em larvas e repetir talvez para sempre esse ciclo?
Pelo contrário: a Bete não importam a vida e morte das borboletas. Por ingenuidade, às vezes põe-se a imaginar se elas ainda não estariam por aí, levando milagres a mais filhos e filhas de Deus. Chega a reconhecer dez, vinte anos mais tarde uma daquelas mensageiras nas manchinhas amarelas esvoaçantes de cada primavera, ingênua, ignorando suas mortes - trágicas? Não, falta tragédia na vida das borboletas.
E assim as borboletas também nada sabem de Bete, que era apenas uma pedra engraçada que protegia contra o vento. Para as borboletas não há mensagem, não há milagre, há apenas a vida que não se consegue entender.
E começa. São dezenas de borboletas amarelas, todas juntas, bem à sua frente. Elas não passam por ela simplesmente, como seria de se esperar, mas escolhem ficar lá, só para ela. Ou pelo menos é o que Bete pensa; é só nisso que consegue pensar enquanto, com lágrimas nos olhos, esquece por um momento a angústia que a persegue há semanas. Mal percebe quando o celular toca em suas mãos, atende sem desgrudar os olhos da revoada de borboletas - é essa a palavra, revoada? Ela não sabe, e o encanto não deixa espaço para que ela pense mais nisso, só permite que ela ouça as palavras, quase gritadas, que chegam pelo telefone:
"Deu certo, ele etá bem!"
O clichê completa-se com o aparelho caindo no chão, Bete ajoelhando-se e agradecendo a Deus o milagre, toda riso e lágrimas. As borboletas vão embora, mas já cumpriram seu papel de portadoras da boa nova. Elas não precisam mais estar ali, não precisam mais existir: já são uma memória que Bete carregará para sempre. Por causa dela, Bete voltará a ir à Igreja, batizará os filhos, brigará com o marido nos domingos de manhã. Acenderá velas e incensos, rezará orações diárias.
E sempre que vir uma borboleta amarela, lembrará com carinho do dia em que uma vida que julgava perdida foi ganha de volta. E agradecerá silenciosamente às pequenas borboletas que trouxeram de volta uma alegria que não esperava rever. QUando for velha, ensinará a seus netos que uma borboleta é um sinal de Deus.
Mas e elas? E as borboletas, o que pensam disso?
Será que elas sabem da alegria de Bete, será que elas ligam para a mulher que transformou o desespero em felicidade, que grita um obrigado para o céu?
Uma revoada de borboletas - assim como Bete, elas não ligam se é essa a palavra - se importa com as flores, fonte de alimento, com os pássaros, aranhas e sapos, seus predadores, e com a possibilidade de acasalamento, seu objetivo de vida. O resto não faz o menor sentido.
Bete se preocupa se estas borboletas que ela vê não são nem um décimo do que os ovos que uma única delas botaria em um dia? Que havia o dobro delas há uma semana atrás? Que daqui a alguns dias não haverá mais nenhuma delas, apenas os ovos que as mais fortes conseguirão pôr, que vão chocar em larvas e repetir talvez para sempre esse ciclo?
Pelo contrário: a Bete não importam a vida e morte das borboletas. Por ingenuidade, às vezes põe-se a imaginar se elas ainda não estariam por aí, levando milagres a mais filhos e filhas de Deus. Chega a reconhecer dez, vinte anos mais tarde uma daquelas mensageiras nas manchinhas amarelas esvoaçantes de cada primavera, ingênua, ignorando suas mortes - trágicas? Não, falta tragédia na vida das borboletas.
E assim as borboletas também nada sabem de Bete, que era apenas uma pedra engraçada que protegia contra o vento. Para as borboletas não há mensagem, não há milagre, há apenas a vida que não se consegue entender.
domingo, abril 23, 2006
Via Láctea
(Renato Russo)
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
e quando chegar a noite
cada estrela parecerá uma lágrima
queria ser como os outros
e rir das desgraças da vida
ou fingir estar sempre bem
ver a leveza das coisas com humor
mas não me diga isso
é só hoje e isso passa
só me deixe aqui quieto
isso passa
amanhã é um outro dia não é
eu nem sei porque me sinto assim
tem de repente um anjo triste perto de mim
e essa febre que não passa
e meu sorriso sem graça
não me dê atenção
mas obrigado por pensar em mim
quando tudo está perdido
sempre existe uma luz
quando tudo está perdido
sempre existe um caminho
quando tudo está perdido
eu me sinto tão sozinho
quando tudo está perdido
não quero mais ser quem eu sou
mas não me diga isso
não me dê atenção
e obrigado por pensar em mim
não me diga isso
não me de atenção
e obrigado por pensar em mim.
------------------------------------------------------------------------------------------------
Sem grandes novidades; meio sem graça... Mas de volta. É isso que conta, acho.
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
e quando chegar a noite
cada estrela parecerá uma lágrima
queria ser como os outros
e rir das desgraças da vida
ou fingir estar sempre bem
ver a leveza das coisas com humor
mas não me diga isso
é só hoje e isso passa
só me deixe aqui quieto
isso passa
amanhã é um outro dia não é
eu nem sei porque me sinto assim
tem de repente um anjo triste perto de mim
e essa febre que não passa
e meu sorriso sem graça
não me dê atenção
mas obrigado por pensar em mim
quando tudo está perdido
sempre existe uma luz
quando tudo está perdido
sempre existe um caminho
quando tudo está perdido
eu me sinto tão sozinho
quando tudo está perdido
não quero mais ser quem eu sou
mas não me diga isso
não me dê atenção
e obrigado por pensar em mim
não me diga isso
não me de atenção
e obrigado por pensar em mim.
------------------------------------------------------------------------------------------------
Sem grandes novidades; meio sem graça... Mas de volta. É isso que conta, acho.
sábado, março 18, 2006
Amor Farpado
Dói saber
meu sangue fraco
minhas lágrimas fáceis
meus ossos de vidro
minhas palavras que morrem sempre em algum lugar entre a garganta e o estômago
Me fazem sangrar
seus olhares de faca
seus gritos de pedra
seus silêncios de gelo
o aperto de seus braços que dia sim dia não me amam ou me odeiam
Quero mas não posso deixar
meu espinho que não sai
meu vício incurável
meu câncer cotidiano
seu amor minha droga que me mata uma gota de sangue e um eu te amo por dia
meu sangue fraco
minhas lágrimas fáceis
meus ossos de vidro
minhas palavras que morrem sempre em algum lugar entre a garganta e o estômago
Me fazem sangrar
seus olhares de faca
seus gritos de pedra
seus silêncios de gelo
o aperto de seus braços que dia sim dia não me amam ou me odeiam
Quero mas não posso deixar
meu espinho que não sai
meu vício incurável
meu câncer cotidiano
seu amor minha droga que me mata uma gota de sangue e um eu te amo por dia
terça-feira, fevereiro 21, 2006
O Girassol
Do fedor explodiu o amarelo
sem contar de onde veio sua semente.
Não deu satisfação, apenas apareceu
por cima da água suja do esgoto
do matagal verde do esgoto
vencendo a lama e o mau cheiro
Chegou de supetão
e de um dia para o outro plantou-se
fazendo frente à fumaça dos carros
aos ônibus que passam de um lado e outro
aos prédios feios e de alma triste
às pessoas que passam sempre cegas e irritadas
Mas nada disso o derrota:
ele nasceu para erguer seu rosto orgulhoso
fitando o sol, num gesto zombeteiro
fazendo pouco da sujeira e do fedor
dos shoppings e igrejas e delegacias
dos carros e pessoas sem alma
Semana que vem talvez ele já tenha ido embora
como veio, sem ter explicações a dar
deixando só a saudade da vida
que por alguns momentos apagou a cidade morta.
sem contar de onde veio sua semente.
Não deu satisfação, apenas apareceu
por cima da água suja do esgoto
do matagal verde do esgoto
vencendo a lama e o mau cheiro
Chegou de supetão
e de um dia para o outro plantou-se
fazendo frente à fumaça dos carros
aos ônibus que passam de um lado e outro
aos prédios feios e de alma triste
às pessoas que passam sempre cegas e irritadas
Mas nada disso o derrota:
ele nasceu para erguer seu rosto orgulhoso
fitando o sol, num gesto zombeteiro
fazendo pouco da sujeira e do fedor
dos shoppings e igrejas e delegacias
dos carros e pessoas sem alma
Semana que vem talvez ele já tenha ido embora
como veio, sem ter explicações a dar
deixando só a saudade da vida
que por alguns momentos apagou a cidade morta.
sábado, fevereiro 11, 2006
Pó
Ele chegou devagar, sem anúncio, sem estardalhaço. Começou pelos detalhes; como era de se esperar, ninguém o notou enquanto ocupava apenas aquele cantinho atrás da porta; ninguém nunca reparava lá mesmo. Ninguém viu quando ele chegou também na parte de cima dos armários, debaixo do fogão e da geladeira.
Então, decidiu arriscar: derramou-se sobre as folhas e flores da varanda. As pessoas olharam para ele e finalmente notaram sua presença, e ele quase desfez-se de temor por seu futuro, ameçado por promessas de panos úmidos e vassouras. Mas eram apenas isso, promessas, e tão logo ele percebeu isso, espalhou-se sem pudor pela prataria, pela louça menos usada, pelas fotografias e recordações nos armários, nos livros raramente retirados de suas prateleiras.
Sua marcha agora não se detia por nada. Em vão, as pessoas finalmente saíram de sua inércia e entregaram-se a frenesis de limpeza, desinfetantes e espanadores. De nada adiantou: ele agarrava-se firmemente a cada milímetro de território conquistado, e o que era limpo pela manhã pela tarde já havia novamente sido ocupado novamente pelo adversário. Com uma paciência toda sua, avançava lentamente pela casa, invadindo a mesa ainda posta para o café, a cama até agorinha ocupada, o sofá em que se costumava deitar depois do almoço.
E então, um belo dia, acabou. Num momento de descuido, ninguém lembrou de colocar o pano debaixo da porta do último quarto intocado. Em instantes, ele insinuou-se para dentro com o vento, cobrindo tudo com seu cinzento melancólico, encardindo, sujando. As pessoas, desesperadas, não conseguiam acreditar em suas próprias peles cobertas de cinza, e tentavam remover a camada de pó que as sufocava cada vez mais. A água já não dava certo (o próprio chuveiro já estava entupido e dele só saia uma lama escura), e elas tentaram espanar-se, dar tapas na pele, arranhar-se, cortar-se com as unhas até verem o sangue misturar-se à poeira. Tarde demais. No fim, nada deu certo, e na casa restou só a tranquilidade cinzenta do esquecimento.
Então, decidiu arriscar: derramou-se sobre as folhas e flores da varanda. As pessoas olharam para ele e finalmente notaram sua presença, e ele quase desfez-se de temor por seu futuro, ameçado por promessas de panos úmidos e vassouras. Mas eram apenas isso, promessas, e tão logo ele percebeu isso, espalhou-se sem pudor pela prataria, pela louça menos usada, pelas fotografias e recordações nos armários, nos livros raramente retirados de suas prateleiras.
Sua marcha agora não se detia por nada. Em vão, as pessoas finalmente saíram de sua inércia e entregaram-se a frenesis de limpeza, desinfetantes e espanadores. De nada adiantou: ele agarrava-se firmemente a cada milímetro de território conquistado, e o que era limpo pela manhã pela tarde já havia novamente sido ocupado novamente pelo adversário. Com uma paciência toda sua, avançava lentamente pela casa, invadindo a mesa ainda posta para o café, a cama até agorinha ocupada, o sofá em que se costumava deitar depois do almoço.
E então, um belo dia, acabou. Num momento de descuido, ninguém lembrou de colocar o pano debaixo da porta do último quarto intocado. Em instantes, ele insinuou-se para dentro com o vento, cobrindo tudo com seu cinzento melancólico, encardindo, sujando. As pessoas, desesperadas, não conseguiam acreditar em suas próprias peles cobertas de cinza, e tentavam remover a camada de pó que as sufocava cada vez mais. A água já não dava certo (o próprio chuveiro já estava entupido e dele só saia uma lama escura), e elas tentaram espanar-se, dar tapas na pele, arranhar-se, cortar-se com as unhas até verem o sangue misturar-se à poeira. Tarde demais. No fim, nada deu certo, e na casa restou só a tranquilidade cinzenta do esquecimento.
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Primeiro Andar
(Rodrigo Amarante)
(Para ouvir a música, segure Shift e clique aqui)
já vou, será
eu quero ver
o mundo eu sei
não é esse lá
por onde andar
eu começo por onde a estrada vai
e não culpo a cidade, o pai
vou lá, andar
e o que eu vou ver
eu sei lá
não faz disso esse drama, essa dor
é que a sorte é preciso tirar pra ter
perigo é eu me esconder em você
e quando eu vou voltar, quem vai saber
se alguém numa curva me convidar
eu vou lá
que andar é reconhecer
olhar
eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou
eu escrevo e te conto o que eu vi
e me mostro de lá pra você
guarde um sonho bom pra mim
eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou
(Para ouvir a música, segure Shift e clique aqui)
já vou, será
eu quero ver
o mundo eu sei
não é esse lá
por onde andar
eu começo por onde a estrada vai
e não culpo a cidade, o pai
vou lá, andar
e o que eu vou ver
eu sei lá
não faz disso esse drama, essa dor
é que a sorte é preciso tirar pra ter
perigo é eu me esconder em você
e quando eu vou voltar, quem vai saber
se alguém numa curva me convidar
eu vou lá
que andar é reconhecer
olhar
eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou
eu escrevo e te conto o que eu vi
e me mostro de lá pra você
guarde um sonho bom pra mim
eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou
quarta-feira, janeiro 11, 2006
Romance em três atos (III)
III. Arlequim
Todos os dias acordo com a ânsia incontralável de falar com ele. De pedir desculpas pelo que fiz, de abraçá-lo chorando, de poder tirar esse peo do coração. De ficar do lado dele, onde é meu lugar de verdade. Então, eu tomo banho, arrumo-me o melhor que posso, e ando pela rua imaginando a cena do reencontro, ele me recebendo novamente de braços abertos.
E tudo escorre pelo ralo quando o vejo.
Às vezes ele está saindo de casa. Alguns dias, quando consigo chegar mais cedo, ainda posso vê-lo pela janela, do lado de dentro de casa, sozinho. Mas o pior é quando ele está com o outro. Aquele que, por culpa só minha, tomou meu lugar. Ou melhor, aquele para quem eu dei meu lugar, que soube ocupá-lo quando o abandonei.
EU O ODEIO!
No fundo, sei que é por sua causa que nada deu errado, que o embrulho que há mais de dez anos deixei em sua porta hoje é um menino bonito e saudável, aquele que amo tanto. Mas não há como não odiá-lo ao ver os dois abraçados, conversando, ou apenas sorrindo um parar o outro. Não há como reagir sem rancor quando essa ferida tão dolorida é remexida desse jeito.
Eu deveria estar lá. Não ele.
Sinto minha barriga dar voltas, meu peito aperta, a garganta dói. Não aguento mais vir todos os dias aqui e ver a felicidade que deveria ter sido minha, se eu não tivesse sido tão covarde. Não aguento mais ainda ser covarde como naquela noite, não tendo coragem de fazer a única coisa que deveria fazer para recuperar o que é meu. E hoje eu posso sentir a raiva, a tristeza, a angústia, tudo explodir de vez. De repente, a figura de um pai carinhoso abraçando seu filho que
vejo pela janela não consegue mais me parar.
vejo pela janela não consegue mais me parar.
A porta está destrancada. Eles tomam um susto. Lógico, não deve ser todos os dias que um estranho com lágrimas escorrendo pela cara invade a casa deles. Eles me olham. Eu só tenho olhos para meu filho. E de repente ele entende e começa a chorar, também, e logo o outro também vê tudo e todos estamos chorando. Não nos tocamos, não ouso fazer isso, mesmo quando o outro, ainda com os olhos molhados deixa a sala e começa a fazer as malas.
Não sei quanto tempo se passa; nós dois não choramos mais, apenas nos olhamos, conhecendo-nos, tirando o atraso desses catorze anos que foram roubados de nós.
O outro volta, traz duas malas. Não nos despedimos; apenas pegamos, cada um, uma mala na mão e saímos pela porta. Na rua, pego sua mão; ela é quente, espanta o frio. Tomo coragem e me atrevo a mentir:
- Tudo ficará bem agora.
sexta-feira, dezembro 23, 2005
Romance em três atos (II)
II. Colombina
Na verdade... Não é que eu não goste. É que me faz sentir um pouco... estranho, sei lá, algo que não estou acostumado a sentir. É um arrepio no peito que esquenta e depois esfria, me faz sentir bem mas ao mesmo tempo me faz querer estar do lado dele, agarrado como quando eu tinha três anos, cinco anos, sei lá, algo assim. Mas não posso mais fazer isso o tempo todo, não posso pedir colo toda vez que estou triste, dormir na mesma cama dele quando estou com medo. Já tenho catorze anos, não sou mais um menininho chorão, as pessoas estranhariam se eu continuasse a fazer isso.
Mas sinto saudade às vezes. Como agora.
Agora ele vai perceber o estrago que fez, porque eu devo estar com uma cara totalmente contrariada. Eu também sei o que ele vai fazer depois disso: vai me chamar pra sentar no sofá com ele, vai me abraçar (acho que isso a gente ainda pode fazer, pelo menos enquanto a gente tá sozinho), e vai me contar de novo a história de quando a gente se encontrou pela primeira vez. Já ouvi essa história umas doze mil vezes, mas nunca enjôo. Pelo menos, é um pretexto pra não ter que disfarçar que gosto dele.
Ele me fala da cestinha, da confusão pra achar leite, de como eu nunca dormia e sempre chorava, mas de como eu tomei a vacina sem chorar. E então a gente vai ficar calado um pouco, só aproveitando a presença e o contato um do outro. Isso é diferente de quando eu era pequeno; é mais... maduro, acho, é um sentimento diferente. Eu gosto disso, de a gente se amar diferente agora que cresci.
Mas nunca dura muito, eu me levanto e vou pro meu quarto, ele sai de casa e diz que volta pro jantar. De noite comemos juntos, e a gente vai dormir sem muita conversa. E a gente fica assim, meio distante como é normal, até chegar outro dia em que ele me olha daquele jeito e não dá mais pra fingir que não sei que tenho alguém que me ama. E fico ansioso pra esse dia chegar novamente.
De repente, percebo que ele está olhando de novo para mim daquele jeito de novo. Como se nunca tivesse me visto na vida mas quisesse me falar algum troço. Ele sabe que isso me deixa com vergonha, mas sempre faz isso. Eu reclamo, digo que não gosto, mas nunca adianta.
Na verdade... Não é que eu não goste. É que me faz sentir um pouco... estranho, sei lá, algo que não estou acostumado a sentir. É um arrepio no peito que esquenta e depois esfria, me faz sentir bem mas ao mesmo tempo me faz querer estar do lado dele, agarrado como quando eu tinha três anos, cinco anos, sei lá, algo assim. Mas não posso mais fazer isso o tempo todo, não posso pedir colo toda vez que estou triste, dormir na mesma cama dele quando estou com medo. Já tenho catorze anos, não sou mais um menininho chorão, as pessoas estranhariam se eu continuasse a fazer isso.
Mas sinto saudade às vezes. Como agora.
Agora ele vai perceber o estrago que fez, porque eu devo estar com uma cara totalmente contrariada. Eu também sei o que ele vai fazer depois disso: vai me chamar pra sentar no sofá com ele, vai me abraçar (acho que isso a gente ainda pode fazer, pelo menos enquanto a gente tá sozinho), e vai me contar de novo a história de quando a gente se encontrou pela primeira vez. Já ouvi essa história umas doze mil vezes, mas nunca enjôo. Pelo menos, é um pretexto pra não ter que disfarçar que gosto dele.
Ele me fala da cestinha, da confusão pra achar leite, de como eu nunca dormia e sempre chorava, mas de como eu tomei a vacina sem chorar. E então a gente vai ficar calado um pouco, só aproveitando a presença e o contato um do outro. Isso é diferente de quando eu era pequeno; é mais... maduro, acho, é um sentimento diferente. Eu gosto disso, de a gente se amar diferente agora que cresci.
Mas nunca dura muito, eu me levanto e vou pro meu quarto, ele sai de casa e diz que volta pro jantar. De noite comemos juntos, e a gente vai dormir sem muita conversa. E a gente fica assim, meio distante como é normal, até chegar outro dia em que ele me olha daquele jeito e não dá mais pra fingir que não sei que tenho alguém que me ama. E fico ansioso pra esse dia chegar novamente.
sábado, dezembro 03, 2005
Estranhamento
Quem é o dono desse olhar
que o dirige a mim desse jeito,
essa interrogação e riso juntos?
Quem é o dono desses olhos
castanhos, escuros, profundos,
querendo contar tantos segredos?
A quem pertence essa boca
os cantos para cima num sorriso
que mais se adivinha que se vê?
E esse corpo, pequeno e magro
de uma beleza tão estranha
que acho que ninguém mais vê?
E a tristeza? A alegria?
A surpresa de ver tudo isso
e descobrir que não entende?
Não é esse espelho, que só faz
devolver-me o que emprestei...
Sou eu mesmo esse estranho,
me conheço agora e gosto do que vejo.
que o dirige a mim desse jeito,
essa interrogação e riso juntos?
Quem é o dono desses olhos
castanhos, escuros, profundos,
querendo contar tantos segredos?
A quem pertence essa boca
os cantos para cima num sorriso
que mais se adivinha que se vê?
E esse corpo, pequeno e magro
de uma beleza tão estranha
que acho que ninguém mais vê?
E a tristeza? A alegria?
A surpresa de ver tudo isso
e descobrir que não entende?
Não é esse espelho, que só faz
devolver-me o que emprestei...
Sou eu mesmo esse estranho,
me conheço agora e gosto do que vejo.
domingo, novembro 27, 2005
Romance em três atos (I)
I. Pierrot
Quando eu menos esperava, ele apareceu; estava sobre um monte de trapos cortados, um colchão improvisado, numa cestinha de vime. Antes que o sol me acordasse às seis, como nos dias normais de outono, meus sonhos foram roubados por um choro alto, que deixou no lugar deles inquietação, curiosidade, e a preocupação de que a vizinhança também o ouvisse.
Pulei da cama e peguei apressado a primeira camisa e o primeiro rosto que achei. Não eram muito bons, de modo que a primeira visão que a madrugada teve de mim ao abrir a porta foi a de um espectro de camisa verde-cana e ar de noite de sábado insone e solitária. Foi contrariado com este começo ruim que agachei-me na luz dos postes para ver mais de perto o embrulho chorão.
Tinha a pele enrugada, os olhos apertados com força, uma garganta potente e um cheiro levemente azedo que não deixavam dúvidas sobre sua natureza. Nem bem ele me tinha sido dado (devo frisar que desde o primeiro encontro essa hipótese grudou na minha mente como a única possível), e já exigia algo de mim, uma compensação. Eu estava quase pensando que não era justo da parte dele, mas percebi antes que na verdade eu já o esperava há bastante tempo.
Uma sensação de... vazio acompanhava-me há mais tempo do que conseguia me lembrar, enuqanto eu buscava algo que não sabia bem o quê, algo que pudesse preenchê-lo. Era nisso que eu pensava enquanto tentava invocar, em vão, algum pensamento mau-humorado e ranzinza sobre os inumeráveis incômodos de abrigar em minha casa um filhote de qualquer-coisa. Mas quando aquele choro insistente começou a expulsar meu mal-estar crônico e tomar seu lugar em mim, sabia que já o havia aceitado, que pagaria de boa vontade qualquer preço que ele me cobrasse; e rendendo-me antes de começar realmente a lutar, tentava lembrar onde eu tinha guardado o leite em pó e trazia aquela cestinha para dentro, para a quentura (agora perigosamente familiar) da minha casa.
segunda-feira, novembro 21, 2005
Em homenagem à noite de ontem...
"A música e a palavra do fogo encantado, penduradas no cordão da grande feira, anunciam passagem do Palhaço sem Futuro. A combustão do som e os gestos da cena burlesca projetam luzes na pequena lona do circo. O círculo da vida. Declaramos o novo espetáculo do nosso desejo. Assumimos o palhaço como símbolo, com suas pinturas de guerra, seu passado ridículo, sua loucura fingida, sua alma impaciente. Sonho que caminha no mundo sem futuro e que faz do presente o fundamento de existência. Mesmo com a guerra na porta, com a lona rasgada e sob a tempestade sem fim, o espetáculo vai começar!" - Cordel do Fogo Encantado, encarte do CD "Palhaço do Circo sem Futuro"
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Um Palhaço
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Pinto meu rosto com as cores que todos os dias eles vêem no espelho. Faço da minha cara o retrato cruel do ridículo cotidiano de suas vidas. Os sorrisos insossos, as caretas fingidas, a apatia sonolenta. E tudo o que eles sabem fazer é achar tudo engraçado e gargalhar.
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Um Palhaço
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Pinto meu rosto com as cores que todos os dias eles vêem no espelho. Faço da minha cara o retrato cruel do ridículo cotidiano de suas vidas. Os sorrisos insossos, as caretas fingidas, a apatia sonolenta. E tudo o que eles sabem fazer é achar tudo engraçado e gargalhar.
Durante toda uma noite torno-me o próprio absurdo que vejo em cada um deles. Sou a caricatura do mesquinho, do desesperado, do cínico, do inseguro, do suicida. Imito todas suas bobagens, suas vãs tentativas de fingir que estão vivos. E como eles se acabam de rir.
Vou ainda mais longe; na cara de cada uns deles, digo exatamente o que penso de suas idiotices. Mostro a cada um o quão humilhante é estar na pele dele, viver suas pequenas falsas emoções e sobressaltos. Grito que todos eles são uma corja de covardes, sem coragem sequer para assumir a própria farsa. Eles quase caem de suas arquibancadas, riem de se bolar.
Pergunto se eles estão achando se eu sou a porra de um palhaço, e mando todos à merda. O circo quase vem abaixo com as gargalhadas.
E então eu fico sério. Calado, encarando cada um deles. Lentamente, eles percebem que algo está errado, eu deveria estar rindo também, rindo de mim mesmo como eles. Pouco a pouco, eles param de rir, e começam a ficar tensos, desconfortáveis. E começam a se perguntar se tudo aquilo que fiz e disse era sério, se eles eram a piada, e não eu.
E então eu rio com toda a cena. Não posso evitar, é engraçado demais! De repente todos eles percebem que não são nada, que não passam de merda, até cara de merda eles fazem! É demais, eu rolo no chão gargalhando, eu não aguento com isso.
Alguns ainda tentam rir, um sorriso amarelo, sem graça. Disfarçar o mal-estar geral. Mas é tarde, o feitiço já foi feito, e todos eles saem do circo com uma ilusão a menos em suas vidas. E eu termino essa noite com umas risadas a mais.
domingo, novembro 13, 2005
Going to California
(J. Page - R. Plant)
Spent my days with a woman unkind
Smoke my stuff and drank all my wine
Made up my mind to make a new start
Going to California with an aching in my heart
Someone told me there's a girl out there
With love in her eyes and flowers in her hair
Took my chances on a big jet plane
Never let them tell you that they're all the same
The sea was red and the sky was grey
Wondered how tomorrow could ever follow today
The mountains and the canyons started to tremble and shake
As the children of the sun begin to awake
Seems that the wrath of the gods
Got a punch on the nose and started to flow
I think I might be sinking
Throw me a line if I reach it in time
I'll meet you up there
Where the path runs straight and high
To find a queen without a king
They say she plays guitar and cries and sings... La la la la
Riding a white mare in the footsteps of dawn
Trying to find a woman who's never been born
Standing on a hill in my mountain of dreams
Telling myself it´s not as hard, hard, hard as it seems
(In: Led Zeppelin - Four Symbols)
Spent my days with a woman unkind
Smoke my stuff and drank all my wine
Made up my mind to make a new start
Going to California with an aching in my heart
Someone told me there's a girl out there
With love in her eyes and flowers in her hair
Took my chances on a big jet plane
Never let them tell you that they're all the same
The sea was red and the sky was grey
Wondered how tomorrow could ever follow today
The mountains and the canyons started to tremble and shake
As the children of the sun begin to awake
Seems that the wrath of the gods
Got a punch on the nose and started to flow
I think I might be sinking
Throw me a line if I reach it in time
I'll meet you up there
Where the path runs straight and high
To find a queen without a king
They say she plays guitar and cries and sings... La la la la
Riding a white mare in the footsteps of dawn
Trying to find a woman who's never been born
Standing on a hill in my mountain of dreams
Telling myself it´s not as hard, hard, hard as it seems
(In: Led Zeppelin - Four Symbols)
quarta-feira, novembro 09, 2005
Uma Nova Paisagem
Posso ver um novo céu. Diferente... Mas aqui na terra as coisas continuam como sempre.
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Meu primeiro template! Tá tosco, mas tô feliz assim mesmo! :P
Agradecimentos especiais a Valds, que me passou o programa dos templates! Valeu! Êêêêêêêê!!!
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Meu primeiro template! Tá tosco, mas tô feliz assim mesmo! :P
Agradecimentos especiais a Valds, que me passou o programa dos templates! Valeu! Êêêêêêêê!!!
quinta-feira, novembro 03, 2005
Dia de Finados
Nosso destino é a ilusão. Só porque a paisagem a nosso redor muda, achamos que estamos caminhando; "sempre em frente" é o nosso lema. Só quando é tarde demais é que percebemos que os passos que damos são do mundo que gira debaixo de nossos pés, e quando menos esperamos estamos de volta aos mesmos lugares. Fugir é andar em círculos, acho que já li ou ouvi isso em algum lugar.
Não há como não lembrar-me dessa frase agora. Eu parado em frente ao portão do cemitério, indiferente a tudo, a quem entra e sai chorando, ao sol escaldante do feriado, aos baldes de flores coloridas e coroas de mau gosto... Se pudesse me ver, tenho certeza de que descobriria que nada que faço, vejo ou sinto é novo, apenas a reprise de um filme de mau gosto que alguém esqueceu de tirar da programação.
No começo, nos primeiros anos, ainda me surpreendia por estar sempre no mesmo papel, repetindo as mesmas atitudes e gestos; hoje em dia já me acostumei com minha própria fraqueza. sei que não sou tão forte quanto passo o resto do ano a acreditar, que talvez nunca consiga ir para, de verdade, nunca mais voltar.
Como todas as vezes, fico parado ainda alguns minutos antes de entrar, com um buquê de mau gosto na mão. No começo, era a hesitação que me impedia de entrar logo; hoje, são apenas o cansaço e a força do hábito. Devagar, passo pela soleira, e caminho devagar por entre as árvores. Sei perfeitamente onde você está, sei como chegar lá, mas sei também que vou me perder, tenho que me perder. Apenas depois de uma ou duas voltas encontrarei você, ao mesmo tempo aliviado e desapontado comigo mesmo. Tudo isso eu vejo enquanto apenas acabei de entrar, nem comecei a percorrer as alamedas ainda. Mas não há como não adivinhar o final da história, principalmente tendo estado nela tantas e tantas vezes.
Logo depois de lhe encontrar, vou me achar estúpido por ainda não ter aprendido o caminho, e então ficarei simplesmente ali, parado à sua frente, sem saber o que dizer. Ficarei apenas te olhando, me perguntando porque estou lá. Por que vou de braços abertos ao encontro da dor, por que ainda insisto em repetir um encontro que não leva a nada, que só me faz sofrer, sempre? Aos poucos, querendo ou não, isso pouco importa, vou conseguir desenterrar tudo o que tenho conseguido manter escondido, oculto, reprimido por todos esses anos, as boas e más lembranças, todas elas dolorosas demais.
Sei que me sentirei confuso, que vou querer nunca ter lhe conhecido, nunca ter lhe encontrado, que iria preferir mil vezes não ter retornado aqui, ter ido embora antes de entrar num acesso de bom-senso, até mesmo ter ficado perdido para sempre aqui dentro, vagando sozinho entre túmulos desconhecidos, preferia tudo isso a não estar aqui hoje. Sei que de novo não saberei se devo te amar ou te odiar por tudo o que você fez e não fez. O que foi sua culpa no passado, o que foi minha. Lembrarei de todas as vezes em que você me decepcionou, me humilhou, brincou comigo, e de como mesmo sem que você pedisse fui idota em te perdoar, em fingir que esquecia, fazia de conta que não era nada.
Começo minha caminhada dentro do cemitério ao mesmo tempo que continuo a lembrar o que vai acontecer. Vou começar a chorar, mas no começo ninguém vai perceber por causa dos óculos escuros. Só quando eu me ajoelhar sujando minha calça, e com a mão escondendo o rosto vou começar a soluçar. O buquê vai ter terminado de se desfazer no chão, onde ele tiver caído, e eu não saberei porque estou fazendo isso. Não consigo, não conseguirei entender como algo tão velho, que já aconteceu há tanto tempo, ainda faz isso comigo.
Ando pela primeira entrada errada no caminho, vou até onde sempre percebo que estou no caminho errado, e começo a caminhar de volta, acho que estou na metade do caminho agora. Depois da confusão, só virá a vontade de que você não tivesse ido embora desse jeito, me humilhando até com sua morte, que apesar de tudo o que você me fez eu ainda queria lhe ver, e não apenas ler o seu nome numa placa de pedra. Vou estar chorando como uma criança, e um desconhecido amável se oferecerá para me arranjar um copo d'água, me acompanhar a meu carro. Vou responder que não precisa, que tudo está bem; darei as costas para você, comecerei a caminhar em direção à saída fungando e limpando as lágrimas. Então simplesmente vou perder de novo o controle, sair correndo, esbarrando nas pessoas, até meu carro, e dirigir feito um maluco até em casa.
Agora, parado em frente a seu túmulo, sei que daqui a uma hora estarei encolhido em minha cama, chorando e prometendo a mim mesmo que isso nunca mais vai se repetir, que não há motivo para reviver esse sofrimento mais uma vez. De tarde eu vou estar melhor, talvez vá ao cinema, dê um pulo na praia. Vou fingir que esqueci tudo, que nunca mais vou voltar pra te ver. A farsa vai durar até o próximo ano, quando sem saber porque, vou pegar o carro e vir aqui mais uma vez. E tudo vai se repetir, ano que vem, e no outro, e em todos os outros até o fim.
Tudo isso vem como um bolo na garganta, saber que estou preso e não posso escapar. As primeiras lágrimas já caem. Daqui a pouco não conseguirei pensar em nada, não perceberei mais como tudo se repete, a dor não vai deixar que eu perceba qualquer outra coisa. Por isso, aproveito enquanto me resta um pouco de autocontrole e me despeço agora, porque sei que quando eu for embora, fugir correndo, vou estar desesperado demais para pensar nisso. Adeus, meu amor, penso um pouco antes de me ajoelhar e soluçar, te vejo de novo ano que vem.
segunda-feira, outubro 24, 2005
Encontro no trem
O trem pára à minha frente; logo, uma fila de pessoas se empurrando e gritando umas com as outras se forma. Como não é o meu, fico no mesmo lugar que estou, sentado em um banco de madeira na estação. Mas não volto a ler o livro que agora reposa aberto em meu colo, meus olhos agora ocupados com uma das janelas do trem.
Do outro lado do vidro, outra pessoa olha para fora. Fitando o vazio, de forma vaga, pensativa, sem ligar muito para o mundo à sua volta, mais preocupado com... Com o quê? É engraçado, não consigo imaginar no que ele poderia estar pensando, embora com certeza seja algo que qualquer pessoa poderia pensar; não sei porque, não consigo vê-lo tentando imaginar que horas o trem vai chegar, como estará a família que vai encontrar (ou que deixou), o que vai fazer hoje à noite... Ele é um completo mistério para mim, e acho que é isso que me fascina.
Percebo que não consigo desviar meus olhos dele. É engraçado como essas coisas acontecem sem previsão; menos de trinta segundos encarando um estranho através de uma janela e já estou enfeitiçado. Rio sozinho com a descoberta de um sentimento sem razão, e não sei porque meu riso atrai sua atenção. Do vazio, seus olhos passam para mim, primeiro com curiosidade, depois... Com algo mais? Ou será que isso é só o que quero?
Não sei dizer, mais uma vez, o que significa seu olhar. Se ele continua me olhando apenas por curiosidade, por estar imaginando que tipo de pessoa encara outra em um trem e ri sozinho; se estranha minha atitude, sentindo-se desconfortável com um estranho que não pára de encará-lo; ou se olha para mim com o mesmo interesse que eu. Se esse olhar é uma interrogação, repulsa... Ou um convite.
Rapidamente, ele desvia o rosto, voltadoa gora para o outro lado, para dentro do trem. Já sem nenhum sorriso, sinto-me completamente estúpido. Irritado, pego meu livro e guardo-o na mochila. Como uma pessoa pode ser tão idiota, tão ingênua? Olho novamente para a frente e penso, por que esse trem ainda não foi embora, e ele está me olhando novamente.
Não sei o que fazer. Não consigo desviar meu olhar do dele, e fico cada vez mais intrigado. Eu nunca fui bom em adivinhações, e não sei se vejo nesse olhar uma chance ou um mal-entendido. Normalmente, eu costumo ficar com a segunda hipótese; mas... Eu não sempre me arrependo disso depois? Não fico achando que deveria ter apostado no improvável quando preferi não arriscar? Cato meus bolsos atrás da passagem para o meu trem, e assim que a encontro ele chega.
Agora a dúvida fica mais séria. Pelo menos uns dois minutos se passaram com o outro trem parado, e como a fila do meu está surpreendentemente pequena, ele não vai demorar muito na estação. Eu poderia ir no guichê trocar minha passagem por outra, e fazer companhia ao estranho que pareço já conhecer, mas estaria me arriscando a voltar ao embarque quando ambos já tivessem partido. Ou pior, conseguir trocar a passagem, embarcar no outro trem, e descobrir que tudo não havia passado de um mal-entendido, e ter que passar meia hora de viagem arrependido e morrendo de vergonha, apenas para ter que pagar mais uma passagem para chegar (atrasado) ao meu destino. Mas ele continua me olhando, não é possível que isso aconteça... Ou é? QUero dizer, quais as chances reais de eu entrar no trem, sentar-me a seu lado e ele simplesmente ignorar-me o resto da viagem, olhando para fora exatamente como está fazendo agora?
Contrariado, decido que não vale a pena arriscar; assim que decido não ir, como num passe de mágica, o trem fecha as portas e parte. Suspiro aliviado; mesmo que eu estivesse errado, que eu tivesse encontrado inesperadamente uma companhia, simplesmente não teria dado certo. O trem já teria partido quando eu voltasse. Talvez se eu não tivesse hesitado tanto... Mas olho para o tamanho monstruoso da fila da compra de passagens e penso que nem que eu tivesse ido para lá assim que o trem tivesse chegado não teria dado tempo.
Pego minha mochila e minha mala e entro no meu trem. Procuro uma poltrona na janela e passo a viagem olhando para fora e ouvindo música. Tento continuar a ler meu livro umas duas vezes, mas o balanço do trem começa a me dar dor de cabeça, e não quero correr o risco de enjoar na viagem. Passo então o tempo pensando naquele estranho que eu estava destinado a não conhecer. Mesmo sabendo que não conseguiria, sinto-me frustrado por não haver tentado. Não sei o porquê de me sentir assim, apenas... Apenas mais uma vez eu tive a oportunidade de arriscar e não o fiz. Enquanto lá fora as árvores e os postes passam rápido, me arrependo de mais uma vez não ter feito a escolha errada.
Do outro lado do vidro, outra pessoa olha para fora. Fitando o vazio, de forma vaga, pensativa, sem ligar muito para o mundo à sua volta, mais preocupado com... Com o quê? É engraçado, não consigo imaginar no que ele poderia estar pensando, embora com certeza seja algo que qualquer pessoa poderia pensar; não sei porque, não consigo vê-lo tentando imaginar que horas o trem vai chegar, como estará a família que vai encontrar (ou que deixou), o que vai fazer hoje à noite... Ele é um completo mistério para mim, e acho que é isso que me fascina.
Percebo que não consigo desviar meus olhos dele. É engraçado como essas coisas acontecem sem previsão; menos de trinta segundos encarando um estranho através de uma janela e já estou enfeitiçado. Rio sozinho com a descoberta de um sentimento sem razão, e não sei porque meu riso atrai sua atenção. Do vazio, seus olhos passam para mim, primeiro com curiosidade, depois... Com algo mais? Ou será que isso é só o que quero?
Não sei dizer, mais uma vez, o que significa seu olhar. Se ele continua me olhando apenas por curiosidade, por estar imaginando que tipo de pessoa encara outra em um trem e ri sozinho; se estranha minha atitude, sentindo-se desconfortável com um estranho que não pára de encará-lo; ou se olha para mim com o mesmo interesse que eu. Se esse olhar é uma interrogação, repulsa... Ou um convite.
Rapidamente, ele desvia o rosto, voltadoa gora para o outro lado, para dentro do trem. Já sem nenhum sorriso, sinto-me completamente estúpido. Irritado, pego meu livro e guardo-o na mochila. Como uma pessoa pode ser tão idiota, tão ingênua? Olho novamente para a frente e penso, por que esse trem ainda não foi embora, e ele está me olhando novamente.
Não sei o que fazer. Não consigo desviar meu olhar do dele, e fico cada vez mais intrigado. Eu nunca fui bom em adivinhações, e não sei se vejo nesse olhar uma chance ou um mal-entendido. Normalmente, eu costumo ficar com a segunda hipótese; mas... Eu não sempre me arrependo disso depois? Não fico achando que deveria ter apostado no improvável quando preferi não arriscar? Cato meus bolsos atrás da passagem para o meu trem, e assim que a encontro ele chega.
Agora a dúvida fica mais séria. Pelo menos uns dois minutos se passaram com o outro trem parado, e como a fila do meu está surpreendentemente pequena, ele não vai demorar muito na estação. Eu poderia ir no guichê trocar minha passagem por outra, e fazer companhia ao estranho que pareço já conhecer, mas estaria me arriscando a voltar ao embarque quando ambos já tivessem partido. Ou pior, conseguir trocar a passagem, embarcar no outro trem, e descobrir que tudo não havia passado de um mal-entendido, e ter que passar meia hora de viagem arrependido e morrendo de vergonha, apenas para ter que pagar mais uma passagem para chegar (atrasado) ao meu destino. Mas ele continua me olhando, não é possível que isso aconteça... Ou é? QUero dizer, quais as chances reais de eu entrar no trem, sentar-me a seu lado e ele simplesmente ignorar-me o resto da viagem, olhando para fora exatamente como está fazendo agora?
Contrariado, decido que não vale a pena arriscar; assim que decido não ir, como num passe de mágica, o trem fecha as portas e parte. Suspiro aliviado; mesmo que eu estivesse errado, que eu tivesse encontrado inesperadamente uma companhia, simplesmente não teria dado certo. O trem já teria partido quando eu voltasse. Talvez se eu não tivesse hesitado tanto... Mas olho para o tamanho monstruoso da fila da compra de passagens e penso que nem que eu tivesse ido para lá assim que o trem tivesse chegado não teria dado tempo.
Pego minha mochila e minha mala e entro no meu trem. Procuro uma poltrona na janela e passo a viagem olhando para fora e ouvindo música. Tento continuar a ler meu livro umas duas vezes, mas o balanço do trem começa a me dar dor de cabeça, e não quero correr o risco de enjoar na viagem. Passo então o tempo pensando naquele estranho que eu estava destinado a não conhecer. Mesmo sabendo que não conseguiria, sinto-me frustrado por não haver tentado. Não sei o porquê de me sentir assim, apenas... Apenas mais uma vez eu tive a oportunidade de arriscar e não o fiz. Enquanto lá fora as árvores e os postes passam rápido, me arrependo de mais uma vez não ter feito a escolha errada.
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